Prostituição em “Individuais” de Tiago Viana
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁCENTRO DE HUMANIDADESCURSO DE LETRAS: PORTUGUÊS / LITERATURADISCIPLINA: LITERATURA BRASILEIRA ROMANCEPROFESSOR: STÉLIO LIMAALUNO: TIAGO FEITOSA VIANA ANÁLISE SOBREA PROSTITUIÇÃO NA OBRA“INDIVIDUAIS”DE TIAGO VIANA
Fortaleza – (CE)2007Descobrir a prostituição na obra literária “Individuais” de Tiago Viana é ir um pouco além do que de fato é a denominada prostituição convencional, o comércio carnal. Venda do prazer? Destilar práticas eróticas, sexuais, sociais? Arte de forma de sociabilidade das comunidades européias da antiguidade. “Cocotes” que faziam parte da cultura européia quando homens de diferentes classes e profissões se sociabilizavam jogando cartas, dançando e bebendo acompanhados pelas meretrizes. O mundo dos bordeis e cassinos de luxo, era o templo das decisões políticas e econômicas da época, corria em meio às mulheres que animavam e perfumavam o lugar. Existindo também nas ruas fora dos bordeis um submundo da prostituição dos cortiços, das moradas precárias, das vilas operárias. Bebidas e mulheres o caminho mais próximo ao prazer extremo. “Na antiguidade, em muitas civilizações, a prostituição era praticada por meninas como uma espécie de ritual de iniciação quando atingiam a puberdade. No Egito antigo, na região da Mesopotâmia e na Grécia, via-se que a prática tinha uma ritualização. As prostitutas, consideradas grandes sacerdotisas (portanto sagradas), recebiam honras de verdadeiras divindades e presentes em troca de favores sexuais”.“Cliente e uma prostituta (o saco de dinheiro está pendurando na parede) 480–470 AC, depositado em coleção particular em Munique. Mais adiante, na época em que a Grécia e Roma polarizaram o domínio cultural, as prostitutas eram admiradas, porém tinham que pagar pesados impostos ao Estado para praticarem sua profissão; deveriam também utilizar vestimentas que as identificassem, pois caso contrário eram severamente punidas. Na Grécia, existia um grupo de cortesãs, chamadas de hetairas, ou heteras, que frequentavam as reuniões dos grandes intelectuais da época. Eram muito ricas, belas, cultas e de extrema refinação; exerciam grande poder político e eram extremamente respeitadas”. A prostituição acompanha a história da humanidade mesmo antes de Cristo. Faz parte da cultura dos povos desde quando o homem subordina as mulheres além da existência do poder financeiro e do homem sobre a mulher.A prostituição contribui para o cenário da cidade, o status dos homens abastados. Um elemento a mais no processo de civilização – cultura urbana. Cidade moderna, de comércio até no sexo –um glamour a mais. Assim como no passado o povo estrangeiro veio civilizar tudo, importações de mulheres aconteciam. As européias chegavam para o deleite da sociedade brasileira rica da época. “a hipocrisia da sociedade cristã-ocidental tenta minar a condição de cidadã que toda prostituta deve possuir” (Rudnicki, D., 1990:21). Expulsar a libido e chamar a atenção dos desejos mais íntimos à prostituta desperta o desejo de poder, de possuir, de mando, de ser dono da coisa sem valor algum – do ser humano. Mas, o que é prostituição? “A palavra “prostituir” vem do verbo latino prostituere, que significa expor publicamente, por à venda, entregar à devassidão. Dela se deriva “prostituta”, para designar as cortesãs de Roma que se colocavam à entrada das casas de devassidão”. “A prostituição pode ser definida como a troca consciente de favores sexuais por interesses não sentimentais ou afetivos. Apesar de comumente a prostituição consistir numa relação de troca entre sexo e dinheiro, esta não é uma regra. Pode-se trocar relações sexuais por favorecimento profissional, por bens materiais (incluindo-se o dinheiro), por informação, etc. A prostituição caracteriza-se também pela venda do corpo, seja em fotos ou filmes em que se deixam à mostra partes intímas do corpo. A prostituição é praticada mais comumente por mulheres, mas há ainda um grande número de homens que têm na prostituição um trabalho cotidiano”. “Na cultura silvícola de algumas regiões, inclusive no interior da Amazônia, Brasil, e em algumas comunidades isoladas, onde não há a família monogâmica, não existe propriedade privada e por conseguinte não existe a prostituição: o sexo é encarado de forma natural e como uma brincadeira entre os participantes. Já onde houve a entrada da civilização ocidental o fenômeno da prostituição passa a ser observado com a troca de objetos entre brancos e índias em troca de favores sexuais”.
Repressão médica a prostituição por conta das doenças sexualmentes transmissiveis foi uma das primeiras repressões intensas a prostituição. “Durante a Idade Média houve a tentativa massiva de eliminar a prostituição, impulsionada pela em parte pela moral cristã mas também no grande surto de DSTs (principalmente sífilis). Em contrapartida, havia o culto ao casamento cortês, onde a política e a economia sobrepujavam aos sentimentos, e as uniões eram arranjadas somente por interesse (que por sí só já poder-se-ia considerar como prostituição), reforçam ainda mais a prostituição. Em muitas Cortes, o poder das prostitutas era muito grande: muitas tinham conhecimento de questões do Estado, tanto que a prostituição passou a ser regulamentada. Quando houve a Reforma religiosa no século XVI, o puritanismo começou a influir de forma significativa na política e nos costumes. Somada a este evento, como já mencionado, aconteceu uma grande epidemia de doenças sexualmente transmissíveis. A Igreja Católica enfrentou frontalmente o problema da prostituição, lançando mão de recursos teológicos (dogmas, tradição e textos Biblicos). Com a ação da Igreja Católica e das igrejas protestantes que surgiam a prostituição foi relegada a uma posição de clandestinidade, apesar da persistência de algumas cortesãs nas cortes Européias e de suas colônias. Com o advento da Revolução Industrial, houve um crescimento na prostituição. As mulheres de então passaram a somar à força de trabalho, e como as condições eram desumanas, muitas passaram a prostituir-se em troca de favores dos patrões e capatazes, expandindo novamente a prostituição e o tráfico de mulheres. Somente em 1899 aconteceram as primeiras iniciativas para acabar com a escravidão e exploração sexual de mulheres e meninas. Vinte e dois anos mais tarde, a Liga das Nações mobilizou-se para tentar erradicar o tráfico para fins sexuais de mulheres e crianças”. “A prostituição era um “mal necessário” para a preservação da moral no lar, não podendo ser considerada crime. Entretanto, ela foi criminalizada como “ato imoral” que ameaçava a vida social” “a grande indústria “tende a destruir os elos e freios familiares”. “Os baixos salários femininos faziam com que a prostituição fosse um fenômeno econômico, como sendo o complemento do salário insuficiente, ou a falta absoluta de salário”. 95% das prostitutas, nessa perspectiva, vinham das classes pobres, como forma de sobrevivência”.
…”Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam…”.
…”E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela…”
“A reprodução desse trecho da Carta a El Rei D. Manuel escrita por Pero Vaz de Caminha em 1º de Maio de 1500, é primeira peça de comunicação feita sobre o Brasil, a qual demonstra que a exploração sexual do Brasil começou já na época do descobrimento, as palavras de Caminha enaltecendo as qualidades da índia brasileira ressaltando seus atributos físicos (com destaque para a genitália depilada “vergonhas tão limpas das cabeleiras) e seu comportamento desinibido (“de nós muito bem olharmos, não se envergonhavam”). Além desta peça escrita, somam-se desenhos e gravuras posteriores, as pinturas de artistas da época, que povoam em grande número os nossos livros de história e galerias de arte, os quais sempre exploraram essa imagem da mulher nua, disponível e exótica. Pelo que pode-se perceber, o turismo sexual já era objeto de
divulgação”.Assim no Brasil como tudo primeiro aconteceu lá fora para depois encontrar o país, a prostituição foi uma delas. Índias eram violentadas e trocas de objetos a favorecimento sexual aconteciam desde a descoberta do continente americano. Meninas eram importadas da Europa para animar as noites da sociedade economicamente forte brasileira. Senhores de engenho além de comprar os escravos para o trabalho forçado nos canaviais denegriam as mulheres escravas nas noites de prazer as escondidas de todos. Foi assim que a prostituição no Brasil começou: o homem branco de poder econômico a esfolar índias e escravas negras tanto no trabalho forçado quanto as escondidas em quartos solitários. Dando origem a muitos filhos a exploração do patrão sobre o proletariado. Havia uma importação de meninas (de fora: das regiões mais ricas. Para dentro do país: região ainda em formação e pobre) para a prática sexual. As zonas, os cabarés invadiam as propriedades privadas no silêncio da dor, na miséria trucidada por soluções de momento. Vias promíscuas de vitrines do prazer. Vias que cortam a cidade de Fortaleza e esteia o comércio do sexo sem mais horários a começar, a finalizar. O produto é exposto a qualquer hora do dia ou da noite. Evolução do povo? Prostitutas, bêbados, carentes, gigolôs, agenciadores de garotas e turistas, há evolução? Mulheres imprestáveis a sociedade, mas o que dizer das universitárias de hoje em dia que se prostituem? O que dizer da “moça de família” que se vende de forma diferente com interesses ao extremo na diversão e no conforto no dinheiro do parceiro? “As prostitutas de antigamente, ao contrário de hoje, praticamente não tinham escolha. Depois do defloramento não seguido do casamento as mulheres eram obrigadas a sustentarem-se e a única opção eram as pensões ou casa de recursos”. “A via-crucis seguida pelas “meninas” era guiada, inexoravelmente, pela decadência. “Elas começaram nas grandes pensões como a Fascinação, na esquina da Senador Alencar com Castro e Silva que tinha como marca registrada a música Fascinação na voz de Carlos Galhardo. Outra casa considerada “classe A” era a Hollywood, onde se encontrava as novidades que apareciam na praça. Garotas com 18 anos, recém-acolhidas pela dona da pensão. Da Fascinação e Hollywood as mulheres desciam para a América, Los Angeles ou Califórnia. De lá para o Zé Tatá ou o Oitão Preto, quando as mulheres atingiam 25 anos, já estavam no Curral”. “Esse movimento de decadência e de descida era natural e encarado como inevitável”, afirma Gadelha. No Curral, elas arranjavam velhos para sustentá-las até mais ou menos uns 35 anos e, depois disso, tornavam-se cafezeiras, boleiras e executavam pequenos serviços. As prostitutas, segundo a pesquisa empírica, com base na vivência de Gadelha, nunca morriam velhas. “Elas não passavam dos 50 anos, talvez pelas condições de vida, alimentação e, principalmente, pela grande quantidade de bebida que consumiam”. Na hora da morte, conta Gadelha, revelava-se o momento mais fraterno e religioso da comunidade. Quando a companheira não tinha dinheiro para ser enterrada, as prostitutas se cotizavam e iam deixar o dinheiro na seda da amplificadora Brasil que passava todo o dia tocando a Ave-Maria, de Shunbert, na voz de Vicente Celestino. O código era tão perfeito que ao se ouvir a música, todos no arraial sabiam da morte da prostituta, a ser velada na capela de Santa Terezinha, construída pelas mulheres-damas, hoje o único marco referencial da extinta comunidade. “Curral era uma tradição da cidade, o lado romântico e ingênuo da prostituição, muito diferente das casas de hoje”. Na obra, Individuais, de Tiago Viana os personagens e principais ícones da cidade de Fortaleza, oito no total, reúnem-se de tempos em tempos para orquestrar o andamento dos questionamentos mundiais, ou melhor, ao mundo que lhe pertencem. Alguma coisa em comum com o restrito grupo de paises mais ricos e influentes do planeta? O G-8? Pois bem, mas, porque diante tanta problemática mundial o “Encontro da Cúpula dos Oito ícones I–8” preocupa-se demasiadamente em calar a Esfera Armilar? E mais ainda: porque a Esfera Armilar narra ininterrupta à história de Israela? Seria uma ameaça de um sobre o outro? Voltemos então para o princípio, voltemos então para os motivos da mudança de comportamento de Israela e o que de fato levou ela a se prostituir nas noites promíscuas da capital cearense. Na doença e na urgência da dor da perda da mãe de Israela, Janaína, impulsionava na criança a entrar na adolescência uma evolução na mentalidade, uma maturidade conquistada com forças na tragédia da consternação familiar. A fina dor no seu interior fez fluir uma preocupação e seu corpo entrava em extremo conflito como a climatologia desvanecida ou com intensas mudanças drásticas pelo aquecimento global. As lágrimas da tristeza que escorriam no rosto e soltava-se da pele dando um teor de solidão aguda que foi vivenciado na hora do parto com a perda definitiva da sua verdadeira mãe, Maria. As lágrimas que nasceram junto a Israela e caíram no colo de sua mãe são as mesmas lágrimas que deixaram o corpo de Israela no momento da morte de sua mãe adotiva, Janaína, as lágrimas abandonam suas angústias e levam a Terra, as sombras se encarregam de levar a dor da ausência e trazer o choque de enfrentar a vida na solidão do amor de sua segunda mãe. É bem no capítulo da “Evolução” que a vida de Israela, menina pacata, de classe média, inteligente, de boa família e bem educada, começa a sofrer ameaças, conflitos exteriores a influenciar sua alma. Uma força a mudar bruscamente, um impulso que a leva ao mundo da prostituição. Não que os grandes culpados da veloz mudança na personalidade sejam a morte de sua mãe adotiva ou do desvio perverso, sexual do seu padrasto quando violenta-a, mas, por dar impulso a sua evolução como ser humano. Em um mundo de contrastes, repleto de caos a todos os lados. Pela primeira vez ela sai da comodidade das decisões e se depara com o maior conflito da existência – a morte. O drama de ficar sem referências, em ficar sozinha ao assombroso mundo, atrás o medo do terror que é o mesmo mundo. O temor do desespero do fincar em lugar nenhum, das raízes a perder, o assombro do novo.Em Individuais a palavra prostituição ganha uma denominação maior, vai além a simples venda do corpo. Foi o desejo, o desejo ter, de poder, de possuir o próximo que traiu Danilo (padrasto de Israela). O desejo da ambição mais íntima que deixou durante meses sua cabeça cheia de conflitos entre o desejo de possuir o corpo de Israela e o drama de ser sua filha (mesmo que adotiva). O desejo lhe impõe uma loucura, uma loucura que para conquistar a cobiça Danilo teria que se libertar da força que lhe sustentava parado fora do quarto de Israela. Mas, o desejo no âmbito da culminância é mais forte e vence. A atração indivisível ao desconhecido, ao prazer extremo, ao gozo instantâneo e satisfação aguda impõe o ato da loucura frente sua filha. Nem o luto da perda fatal de sua esposa foi maior que o desejo a sua filha. O desejo vai além das angústias, das tristezas, das alegrias, da razão, ultrapassa todos os sentimentos a ter em mente apenas a ambição de possuí-la. Talvez por conta da própria angústia do Danilo em ver sua esposa não poder ter filhos legítimos e assim somar aos ciúmes a procurar limites para com Israela. Danilo transfigura e transporta a sua personificação para um animal irracional deixando o desejo impor ao nível sem limites, ser o senhor de toda a razão. É a própria humanidade a violentar seu próprio ambiente, seja na devastação de recursos naturais (flora e fauna) seja na violação dos direitos mínimos a vida, seja no genocídio que a miséria aos quatro cantos do mundo pulsa com a mesma intensidade do desejo que levou Danilo a violentar Israela. Assim como o homem abusa dos recursos da natureza em busca da sua satisfação própria, Israela, parece ter sido abusada sexualmente por seu padrasto, estrompada no seu íntimo na noite em que o Danilo bebia a criar coragem e forçar a mudança bruscas do fato. Assim como o homem desbrava todos os dias os recursos naturais em busca do prazer e satisfação do ter mais, do fator econômico, do poder mais, Danilo buscou a sua satisfação, o poder de ter sua filha ao contentamento do seu deleite mais interior. Danilo agiu igual às grandes corporações que não medem esforços e nem conseqüências para conseguir seu objetivo, seja destruindo o planeta em beneficio próprio, seja castigando o ambiente com discursos mais importantes do que a vida. As formigas a devorar o inseto, desprovido de defesa, lembra Israela na noite de agonia e sufoco. Desprovidas de defesas contra as forças sobrenaturais de seu padrasto a subir na cama e saciar seus incrédulos desejos. No entanto, as mesmas formigas que trucidaram o inseto em milhares de golpes perecem tentar impulsionar, despertar em Israela, ainda em transe pela violência imposta por seu padrasto, alertando a personagem Israela a algum mal
em vista. A ferroada na coxa de Israela em meio a solidão da Praça Portugal, ao lado da apaixonada Esfera Armilar, fez despertar com a dor, no momento da aflição anunciando um mal próximo de acontecer, anunciar com a picada da formiga o mundo da prostituição a ser desvendado por Israela.
A dor, a solidão, o mundo sem destinos, incerto de Israela caminhando pelas ruas vazias de pegadas da capital cearense acentuava-se na sua alma o individualismo extremo ao mundo que impunha suas angústias profundas. Sem destinos a percorrer, o futuro imprevisível, igual ao das bolsas de valores e seus acionistas improváveis e imprevistos pelo mundo, igual às mudanças de final de século. Mas, lá na frente, a esquina surge, urge. Surge como uma esperança, um céu, onde pela primeira vez depois das três perdas (mãe, mãe adotiva e pai adotivo), da profunda solidão encontra a amizade, ligações familiares que ficaram para trás avistavam naquela esquina um portal para transpor a volta do ensejo familiar. A prostituta e travestir, Nara, acolhe a menor abandonada do mundo, acolhe Israela como se fosse sua filha. A esquina realmente naquele momento aparece como a única salvação. “A rua é única opção para quem foge de casa. Sofrimento junto da família é o motivo que leva muitas garotas à prostituição A exploração sexual de crianças nas grandes capitais do Nordeste é tão comum quanto a venda de artesanato ou de tapioca. Qualquer turista que se arrisque a caminhar à noite pela orla de Fortaleza, por exemplo, com facilidade vai encontrar meninas cheirando cola e se oferecendo em troca de dinheiro”.
A fome que fazia cada pegada parecer com cem pegadas assemelhava-se a expor o vazio dos sentimentos, a ausência dos pensamentos, a solidão ao extremo, de Israela a caminhar junta a fome. E assim, a esquina onde Nara e suas amigas trabalhavam na noite surge como a única salvação, a solução de momento para Israela. Como um “anjo da guarda” Nara recebeu Israela em sua residência no bairro do Pirambu. Passando logo em seguida a crise aguda de solidão e fome a morar bem ao lado da prostituição, em meio à miséria que surpreendente acabara de descobrir nos subúrbios e favelas de Fortaleza.
Nara era um travesti que fazia programas com homens e vivia apenas disso. Achava seu trabalho difícil e honrado, considerava também que aconteciam muitos riscos em se trabalhar na noite, no entanto, era a única coisa que sabia fazer. Desde os primeiros contatos com Israela, Nara, deixava claro a suas amigas e a Israela que jamais queria ver ela envolvida nesta profissão. Existia um afeto especial entre Nara e sua colegas de trabalho (mulheres e travesti). Protegia e ajudava suas amigas, dando assistência com palavras e ações que elevavam a “auto-estima” de todas elas. Era o único e derradeiro contato de Israela com a prostituição participando das tardes de acolhimento perante as amigas de Nara. Talvez a partir deste momento desperte nela uma curiosidade ainda maior do que a de apenas escutar os traumas e as coisas boas, engraçadas da profissão de se vender o corpo.
Não há de se convir que Israela adentrasse ao mundo da prostituição por causa do convívio com a Nara. Caso não fosse feito o contato através do travesti teria encontrado bem na próxima esquina, outras vertigens que impulsionariam para esta luz natural da cidade do sol ofuscante. A curiosidade de Israela, a vivência no meio da prostituição sem ainda se prostituir, faz-se presente quando ele segue os passos escondida da Nara e fica vendo-a de longe ela trabalhar na mesma esquina que a conheceu, a exibição aos motoristas. Em resposta ao atrevimento de Israela Nara quando percebe um carro parando ao lado de Israela e a vê, retira-a imediatamente do lugar, provando a todo repúdio que é radicalmente contra a entrada de Israela a prostituição.
Mas, a prostituição parece ser uma vocação turística natural
em Fortaleza. Cidade de clima quente, praias de mar verde e águas mornas, de meninas de beleza exótica, de poucas vestimentas, que atraem milhares de turistas com a mesma intenção de fomentar o “puteiro mundial”. É justamente nos meses de alta estação que os preços dos programas inflacionam, é neste período do ano que as prostitutas da cidade faturam mais. Vale a pena investir em uma entrada mais cara para uma sofisticada boate ou em bebidas nos bares e lugares em que os excursionistas internacionais do sexo andam. “E o dinheiro não é o único motivador. “Muitas sonham em encontrar um ‘príncipe encantado’, alguém que se apaixone e as leve para a Europa”, diz Márcia Cristine Oliveira, coordenadora da Associação Curumim, entidade que trabalha no combate à exploração sexual”. “A forma como muitos estrangeiros tratam as garotas de programa no Nordeste dá uma certa esperança a elas. Eles chegam a ficar todos os dias de sua estada – normalmente mais de duas semanas – com a mesma menina. Além do dinheiro, dão presentes e nunca são enfáticos em negar a possibilidade de levá-las para a Europa como namoradas”. E por que atravessar o oceano atrás de uma prostituta? “Onde moro as prostitutas cobram muito caro, mais de 100, e as mulheres que não cobram me esnobam, querem caras ricos, bonitos e educados. Aqui meu dinheiro vale mais, as prostitutas são mais baratas e os gringos como eu fazem sucesso.” Oliver sabe do que fala. Já esteve na Tailândia e em outros países do mundo onde a prostituição também é uma atração turística. “Mas nada se parece com isto aqui! As meninas circulam de um lado para o outro sem se esconder.” Ele garante que só sai com maiores de idade, mas diz que já viu muitas menores andando com “senhores que têm idade para serem avôs delas”.
Agora quem atende os desejos sexuais internacionais é o Brasil. Não mais importando, mas exportando suas meninas para o mundo violentá-las. O turismo se encarrega de alimentar o motor propulsor do caos do sexo. Zonas sombrias da cidade exportando o prazer, exportando o produto nacional ao mundo – meninas pobres com a perspectiva de mudança de vida com algum estrangeiro apaixonado. De onde nasce a prostituição? “Nasce da hipocrisia de famílias ditas austeras, virtuosas, mas que encorajam a iniciação sexual dos seus filhos com criadinhas trazidas do Interior. Nasce do machismo que ainda condena ao limbo, em certos meios, a mãe solteira. Nasce da pobreza absurda em que vivem milhões de brasileiros, amontoados em completa promiscuidade, sem teto, sem pão, sem lei e sem grei”. Assim, a isca fica fácil demais para os estrangeiros que se aproveitam destes artifícios, além de encaixar a beleza exótica encontrada nas meninas daqui e a reciprocidade para com a beleza idealizada com as meninas locais para com os aspectos físicos dos turistas do sexo (homens brancos, fortes, loiros e de olhos azuis). O dinheiro se encarrega de ser o catalisador da união, o principal sentimento dos sentimentos em forma de papel-moeda. “Os dólares e euros trazidos pelos estrangeiros – e sua maior disposição para gastar – fazem deles os clientes preferidos da indústria do turismo sexual”.
A morte da travesti Nara, com golpes de martelo e foice, denuncia os ricos que a prostituição pode levar ao seu total extremo – a vida. A fragilidade na falta de segurança, dos mais sérios riscos que as prostitutas enfrentam todos os dias. O investimento dos dólares e euros a custa do corpo escultural ou no mínimo exótico para outros podem transformar em um pesadelo sem voltas diante a solução conveniente da prostituição. “O sonho de casar com estrangeiros é uma idéia geral do universo feminino de todas as classes sociais. É uma idealização do estrangeiro e uma desmoralização do homem local. A desmoralização de ver na sua terra os estrangeiros serem mais românticos, mais generosos, mais fiéis. Na verdade, tudo o que elas dizem que eles fazem, eles fazem mesmo. Mandam flores, presentes, preparam café da manhã, assim como qualquer homem que quer conquistar. O que não deixa de ser uma atitude de sedução para obter sexo”. Todo estes artifícios usado de homem cortez, romântico, educado que paga mais caro no programa que os outros homens nascidos no Brasil pode fluir, existir duas saídas: ou ilude as garotas ao ponto de pensar em casamento (príncipe e princesa) e ir morar fora do país, mudança de expectativa de vida ou corre riscos parecidos ou igual ao que tirou a vida da Nara, seja na morte violenta, na morte por contágio de alguma doença sexualmente transmissível ou no encontro ao mundo fútil das drogas, no entanto, além dos altos riscos a cada dia a prostituição progride. O desespero da fome parece ter sido um dos motivos principais que levou Israela a prostituição (pelo menos no seu início). A escassez da urgência de alimentos faz Israela encontrar o lixo, faz buscar alimentos em meio ao que não presta mais para humanidade, em meio ao lixo de um restaurante sofisticado. Na angústia da miséria da solidão de Israela um turista francês, mal intencionado, aproveita-se do momento de despreza, da fragilidade exposta na totalidade da garota e lhe promete o sonho, pelo menos de momento – matar a dor da fome. O turista francês se encanta pro Israela, mesmo ela estando suja, fedida, excluída e amparada pelo lixo (a beleza revela-se exótica ao superior extremo). O pedido de jantar na companhia de Israela não no lixo, mas em uma das mesas dentro do restaurante sofisticado que o francês se alimentava leva a personagem a dois momentos distintos: o de estar dentro do lixo, tudo perdido sem rotas a seguir e o de ir além a segundos e sentar na mesa do mesmo alimento a que encontrou suas sobras minutos atrás no lixo, alimento que por ventura minutos depois poderá encontrar o mesmo destino onde o europeu encontrou Israela. Há também um preconceito da própria cidade para com as meninas, preconceito este visto na passagem do livro em que os freqüentadores que estavam no momento
em que Israela entra no restaurante e as pessoas a avistam com o estrangeiro lhe julgando logo de início como prostituta, no sentido mais pejorativo possível, sem nem ao menos saber de sua procedência, uma repulsa por freqüentar o mesmo ambiente que eles, apenas o reclame de indignação como se o problema fosse culpa apenas da menina e não da sociedade em geral, reclame, apenas reclame e nenhuma ação para mudar a realidade. “Os viajantes à procura de sexo querem mulheres que façam programa e também mulheres que não façam. Não é apenas troca de sexo por dinheiro. Há uma romantização, há um jogo de conquista e, às vezes, até sentimentos. A pesquisa levou a questionar o conteúdo que nós damos à palavra prostituição. Por exemplo, uma moça de classe média que se relaciona com um estrangeiro e é convidada por ele a visitá-lo na Europa, ganha a passagem e um celular, nós não pensamos que está fazendo prostituição. Mas uma garota, por exemplo, uma garçonete que recebe presentes de um estrangeiro, é imediatamente vista como uma garota de programa. Então exatamente o que é prostituição? É a troca de sexo por dinheiro? E por que troca de sexo por dinheiro de maneira não imediata para a classe média não é visto como prostituição e para a classe baixa sim?”. Chegamos à fase do encantamento, na fase do deslumbramento das posses. O francês depois de conquistar Israela através do estratagema mais cruel e mortificante, a fome, leva para o hotel onde estava hospedado logo na entrada presenteia com roupas novas. Há agora o encantamento, a sedução dos presentes que a leva a satisfação de usufruir de objetos até aquele momento impossíveis de se conquistar ficando mais frágil aos encantos do europeu. Lembrando nesta passagem da obra o primeiro contato dos povos europeus com os índios do mundo novo na época do “descobrimento” do Brasil. A sedução do dinheiro aos montes frente à miséria, da possibilidade de mudança de vida em instantes de poucos tempos faz Israela ceder seu corpo ao francês. A lembrança da fome impulsionou a tal decisão. Em seguida ao ato consumado há uma recusa por parte das amigas da Nara em aceitar a entrada para prostituição pela Israela. Mostrando desta forma, a união da coletividade entre as prostitutas, que atenderam ao pedido da finada Nara. Não aceitaram mesmo Israela a entrar para o mercado do corpo. Entretanto, Israela tinha a certeza e estava decidida a aderir a profissão de prostituta, era a única saída que a tinha encontrado, a solução ao alcance do momento. E adentrou, longe, bem longe das amigas da Nara que cumpriram com a palavra a promessa de não deixá-la se prostituir, mesmo já morta. A partir da decisão de Israela de adentrar ao meretrício a obra tenta mostrar mundo fantástico da prostituição. Com as seduções das festas aos encantamentos dos estrangeiros, das soluções imediatas das drogas, do mundo das maravilhas sem fim. Israela era uma prostituta única. Única por levar sua personalidade aos seus negócios, de ser ela própria e não deixar se influenciar por colegas de trabalho, iludir-se mais do que já o cedeu, isso faz consistir sua permanecia no Brasil – “puteiro do mundo”. É neste momento que os sentimentos se invertem e os motivos que levaram em primeiro plano Israela a se prostituir (a fome) perde focas para uma questão inferior que é a de poder viver como qualquer garota de classe média. A materialização de Israela ao escravismo da prostituição não é por acaso que o autor, Tiago Viana, denomina o capítulo da narrativa de materialização. É neste capítulo que Israela encontra o caminho natural e premeditado da cidade – a prostituição. A cidade vendida ao capital estrangeiro, prostituída aos poucos por imóveis, por seus serviços e comércios, inflacionando os preços de tudo, eis a globalização de fato. No entanto, no ápice da miséria absoluta uma cena em meio às calçadas sujas de Fortaleza chama a atenção de Israela. Fato que mudaria o sentido de sua prostituição. Revelando resistência ao plano mundial e ao mesmo tempo conformidade ao patriotismo do combate a miséria. Mendigos a orquestrar a fome deitados na calçada a assar uma imensa ratazana, fazendo Israela voltar ao concreto da miséria, como sobreviver dela, revertendo o pretexto inicial de adentrar a prostituição (a fome). Sua ação foi instantânea e acertada naquela noite distribuindo aos mendigos pedintes todo o seu apurado, tomando uma decisão que mudaria radicalmente seu objetivo em se prostituir: coletivizar a doação de dinheiro para com os pedintes. Sempre nas manhas no Passeio Público filas e longas filas a espera de Israela.
A fome, motivo maior para a iniciação de Israela a prostituição, revertia-se em ação para ajudar outras pessoas que também passaram fome. A coletividade do ato entra em choque ao mundo individualizado, de interesses escassos e individuais, em contraste com a sua própria decisão final, em conflito com o interesse egoísta de que se prostitui seja nas esquinas ou em negócios legalizados por lei de instituições estrangeiras a comprar coisas no Brasil. Israela coletivizou seu motivo de se prostituir. Agora se prostituía para ajudar também aos mais pobres. O fator econômico é o um dos mais determinantes, mais comum do ingresso e permanência na prostituição de Israela.
Israela torna-se uma prostituta muito conhecida
em Fortaleza. Seja aos comentários dos seus clientes ou do lado dos mendigos que ela ajudava. Fama tanta, em todos os setores da sociedade que até o governador da província cearense provou das suas virtudes. Apurado este que encheu de sorrisos os miseráveis a sua espera nas manhãs do Passeio Publico. Programa pago com dinheiro público que retornaria ao bolso do povo. Voltemos ao passado, ao Egito antigo, na região da Mesopotâmia e na Grécia em que as prostitutas eram consideradas como grandes sacerdotisas (portanto sagradas), recebiam honras de verdadeiras divindades. Israela para a maioria dos mendigos pedintes era considerada como uma verdadeira santa, “deusa dos mendigos”, dando um sentido único a prostituição nos dias atuais da escravidão da prostituição internacional.
Os oito ícones da cidade de Fortaleza (Estatua de Iracema, Catedral Metropolitana, Fortaleza de Nossa Senha da Assunção, Coluna da Hora, Theatro José de Alencar, Praça dos Leões, Ponte dos Ingleses, Mercado Central) de fato se comportam como um pai, um padrasto desaforado que acima de todos os instintos violenta a filha e de alguma forma deseja encobrir, calar a filha a teimar os mandos do pai para o mundo. Ameaçando, reprimindo ou a base mais sombria da repressão explícita – a tortura. Um pai que fez o mal e tenta se redimir calando a verdade dos pensamentos da filha. Ou ainda, os ícones se comportam como o poder (a força do mais forte tenta impor saídas) extremo da Terra que conduz e determina a humanidade para que seus problemas, conflitos e soluções não sequer ameacem alguns passos a seguir na frente de suas vidas, suas metas, suas conquistas, seus objetivos finais. Tentando levar, traçar a história de conformidade com seus interesses, empurrando a prostituição ao esquecimento ou a um drama de gerações em gerações sem soluções. Como a sociedade que reclama e não move uma ação para reverter o problema. Um drama incrustado na cultura, abaixo das raízes da humanidade, da tradição e assim sendo não se deve mexer ou mudar. Assim como se não deve jamais modificar o sistema econômico e social do mundo. Enquanto houver ícones (ícones aqui esta além do patrimônio cultural ou em estado sólido, esta aqui referenciando pessoas influentes no mundo atual) a tentar guiar o planeta Terra haverá Israelas nas esquinas dos bairros nobres, às cegas na sociedade sem trégua, haverá prostitutas sofisticadas ou clássicas, haverá a prostituição branca apoiada por seus patriarcas dentro das famílias abastardas, haverá sempre uma “garota de programa” a dar o golpe, seja pela necessidade da estúpida fome ou pelo gozo de se ter mais e viver sobre a proteção das cédulas, do valor depositado nos saldos positivos dos bancos, de números a esticar nas bolsas de valores mundiais ou “simplismente” em cofres a sétimos palmos do chão.
Referências Bibliográficas:
VIANA, Tiago. Individuais. Osasco: Novo Século, 2006.
http://www.mauc.ufc.br/expo/1991/01/index1.htm http://www.brazzilbrief.com/viewtopic.php?t=6847Fonte: ADRIANA PISCITELLI – Folha de S. Paulo – 31/01/2005Jornal Diário do Nordeste – Brasileiros são os que mais exploram sexualmente –
17/10/2000 – http://www.uol.com.br/diariodonordeste/2000/10/17/010061.htm
Revista Istoé – Carnaval a toda hora – Eduardo Hollanda – 09/10/1996
Revista Istoé – Globeleza – foto: Juca Rodrigues – 8/3/95 – Ed. 1327 –
http://www.terra.com.br/istoe/
Jornal A Tribuna – O fim do turismo sexual no Brasil – 09/07/2001 – A-3 (Santos)
Jornal O Estado de São Paulo – O setor do sexo – 08/12/1998
Revista Istoé – nº 1556 – A Europa cai no samba – 28/07/1999
Revista Istoé – Prostitutas made in Brazil – 05/06/1996Sexualidade Criminalizada: Prostituição, Lenocínio e Outros Delitos – São Paulo 1870/1920Noites Ilícitas: histórias e memórias da prostituição. Livro da autoria de Edson Holtz Leme, EDUEL, 2005
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